CALANGOTANGO não é um blog do mundo virtual. Não é uma opinião, uma personalidade ou uma pessoa. É a diversidade de idéias e mãos que se juntam para fazer cidadania com seriedade e alegria.

Sávio Ximenes Hackradt

31.12.10

No último dia do ano de 2010 o Calangotango abraça a todos com a poesia de Zila Mamede. Feliz 2011!

ZILA MAMEDE
(1928-1985)

Nasceu na Paraíba mas viveu a maior parte de sua vida, no Rio

Grande do Norte, ligada às letras e à cultura.

Seus principais livros: Rosa de Pedra (1953), Salinas (1958), O Arado (1959), Exercício da Palavra (1975), A Herança (1984) e Navegos (Poesia reunida 1953-1978).

BILHAR

a Ludi e Oswaldo Lamartine

Na medida exata

em que a noite corre

não fico: me ausento

como quem morre

Entre lousa e livro

- único disfarce

que concedo ao tempo =

mudo-me a face

que, no entanto, vária,

inábil, reprimida,

perde-se no encontro

tátil da vida

Bola sete em rude

pano de bilhar

marco meu sem rumo

jogo-de-amar.

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PROCISSÃO

Quando vem a procissão

no seu passo de perdão,

Alcaide, comendador

dominam povo e andor

Cada grupo de irmandade

empunhando uma verdade:

A das Filhas-de-Maria

virgindade em romaria

Do SSmo Sacramento

vermelha de emproamento

Do Senhor Jesus dos Passos

roxo em santos e devassos

Irmãs da Ordem Terceira

terço em mãos de camareiras

Os meninos da Cruzada

fome na barriga inchada

A Banda da Prefeitura

solo e soldo de amargura

Estandartes, confrarias

escondem velhacarias

O Santo vai carregado

pelos donos do mercado

E o povo segue inocente

descalço, nu, paciente:

- A compacta multidão

carente de Deus e pão.

30.12.10

Marize Castro - Nasceu em Natal em 1962. É poeta, jornalista. Publicou Marrons crepons marfiins (1984), Rito (1993), Poço. Festim. Mosaico. (1996), Esperado ouro (2005).

FENECER


Feneço na ausência

dos homens cor de bronze

do prepúcio de púrpura.

Quem me lapidou

esqueceu de me tirar

o veneno.

Ateio

fogo na minha própria

teia.


Como quem preserva fortalezas

corto minhas / alheias
veias.

Feneço, infinitamente

na presença dos homens

que têm grandes pés e nenhuma fé.

Que me rasgam a carne

e me sepultam em suas glandes.

Não fosse eu
uma pessoa de múltiplos escudos

viveria a vida toda

como um único vestido
de veludo.

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Vinho

Se o queres seco

para molhar a garganta

eu o quero suave

para reinventar

essa chama

se o queres branco

para velar a virgem

eu o quero

vermelho

do porto

para aportar

as paixões

que me dividem

O governo do estado não teve dificuldades para pagar antes de dezembro quase R$7.000.000,00 (sete milhões de reais) a duas empresas de consultoria. A empresa Populus Planejamento e Desenvolvimento de Projetos de Desportos recebeu R$4.456.635,00 por “serviço de consultoria para elaboração do projeto arquitetônico do estádio Arena das Dunas” e a empresa Stadia Projetos Consultoria e Engenharia recebeu R$2.500.000,00 por “serviço de consultoria para o desenvolvimento dos projetos básicos à Copa de 2014”.

Mesmo assim, o governo do Rio Grande do Norte termina o ano fazendo mágica para pagar o funcionalismo. Antecipou recursos que seriam arrecadados pelo próximo governo para honrar o seu compromisso com os funcionários estaduais. Por muito pouco o funcionalismo estadual não ficou a ver navios sem o salário de dezembro.

Alem disso, o governo, no apagar das luzes, está cancelando empenhos referentes a pagamentos de serviços prestados por diversos fornecedores do Estado.

Esse é o velho e cansado Rio Grande do Norte a cada fim de governo.

DO ESTADÃO/REUTERS

A modelo francesa que combateu a anorexia ao posar nua para uma propaganda enquanto sofria da doença morreu aos 28 anos, informou a mídia da França nesta quinta-feira.

Isabelle Caro, cuja campanha antianorexia de 2007 foi banida na Itália, morreu em 17 de novembro, mas sua família pediu que a morte não fosse divulgada, segundo o jornal Le Parisien.

A causa da morte não era conhecida, mas Isabelle, que sofreu de anorexia desde os 12 anos de idade, havia sido hospitalizada por problemas respiratórios, disse Vincent Bigler, amigo da modelo.

Isabelle chocou a indústria da moda ao despir o corpo anoréxico para o fotógrafo italiano Oliviero Toscani -- mais conhecido pelas controversas campanhas da Benetton. A campanha de Isabelle chegou aos outdoors durante a semana de moda de Milão e foi banida por um órgão regulador italiano.

28.12.10

O Calangotango já conta com a participação de dois excelente colaboradores - e desde já agradece de coração: o jornalista Fábio Farias, que escreverá aqui sobre política cultural, e a arquiteta e urbanista Rochelle Bezerra, que estará sempre por aqui escrevendo sobre Arquitetura e Urbanismo.
Esses dois jovens abrem o espaço para novos colaboradores que vão surgir no Calangotango, que "não é um blog do mundo virtual. Não é uma opinião, uma personalidade ou uma pessoa. É a diversidade de ideias e mãos que se juntam para fazer cidadania com seriedade e alegria."
A proposta do Calangotango é ser um blog construído por muitas mãos e muitas ideias, sem preconceito, aberto, plural, capaz de absorver todas as contradições que surgirem. Respeitar a opinião de outrem, mas ter opinião.
Nos próximos dias o Calangotango abre uma série de entrevistas com tuiteiros com perguntas e respostas de até 140 caracteres. Esse mundo virtual tuiteiro nos faz se relacionar com muitas pessoas e na maioria das vezes conhecemos pouco esses personagens com quem nos comunicamos diariamente. A entrevista "Você em 140 caracteres" será apenas para aproximar mais as pessoas que convivem diariamente no twitter. Pretendo entrevistar todos os que me acompanham no twitter. "Você em 140 caracteres" é que é a estrela para o Calangotango.

Arquitetura e Urbanismo
Por Rochelle Bezerra

Vejam vocês, eu também não sabia o que era urbanismo quando decidi entrar novamente na universidade. Queria arquitetura! Mas, em algum momento do curso, um mundo vocacional abriu-se para mim com a primeira aula da professora Eudja Mafaldo.

As primeiras imagens do urbanismo para mim foram: as plantas da cidade de Paris antes e depois do Plano Haussmann e uma aerofotografia.

Paris em 1853 – Antes do Plano Haussmann

Paris e as bem traçadas linhas do Plano Haussmann

Outra imagem que me marcou muito foi a do Plano Cerdà de Barcelona. Ver a imagem de Barcelona foi um choque! A partir de então, virei uma apaixonada pelo tema.

Plano Cerdà

Plano Cerdà e o encontro com o tecido medieval de Barcelona

URBANISMO é uma ciência humana, multidisciplinar, complexa, que estuda as cidades. Dialoga com arquitetura, arquitetura da paisagem, desenho urbano, política, dentre muitos outros ramos do conhecimento.

Você deve estar se perguntando: e eu com isso?

Você com isso? Você tem tudo a ver com isso! Acredite em mim!

Vejam, vivemos reclamando do trânsito, das ruas que alagam em dias de chuva, da falta de iluminação, da falta de saneamento em esgotos a céu aberto, do alto custo dos imóveis, e por aí vão inúmeros momentos em que o urbanista é o profissional gabaritado a responder essas e outras perguntas. Cabe ao urbanista o planejamento urbano, que é de forma simplificada, o estudo, regulação, controle e planejamento da cidade.

As cidades são palimpsestos! Explico: palavra grega, surgida no século V a.C., depois da adoção do pergaminho para uso da escrita. Estes pergaminhos eram apagados para reaproveitamento de outro texto. Assim são as cidades. Uma colagem de usos sob formas superpostas em camadas de história.

O tempo é fator importante para a formação da urbe. Por isso deixo aqui uma crítica quanto ao descontinuísmo de nossos governos. Como fazer planejamento urbano sem uma continuidade? Pode haver alternância no pode e simultaneamente continuidade administrativa. Mas não é isso que acontece. A meu ver, as cidades acompanham o movimento quebradiço das políticas de quatro em quatro anos. Essa historinha besta deve ser repudiada pela sociedade. Então? Um bom primeiro passo para os citadinos: o entendimento do que é o profissional urbanista.

Então, vejam vocês como está certo... “Cada macaco em seu galho”...

Informações da Tribuna do Norte

Um cirurgião do Estado furou a barreira de silêncio que se ergueu em torno do Hospital Monsenhor Walfredo Gurgel (HWG) e, usando o microblog twitter contou, em tempo real, o drama dele em busca de uma sala de cirurgia na madrugada de ontem. A saga de Allan Filgueira (twitter.com/allanfilgueira) - entre a indicação cirúrgica do paciente com o estômago perfurado e o procedimento se passaram seis horas de luta por maca, sala e equipe – foi alternada com frases de desabafo. “Quer um conselho? Evite acidentar-se”, escreveu em um certo momento. No último post, comparou a sala do Politrauma (onde os pacientes recebem os primeiros socorros) a uma guerra. “O Politrauma está um caos! Faixa de Gaza! Quer ser cirurgião?” (Leia a reprodução ao lado). O acesso ao HWG é fechado aos repórteres e fotógrafos.

No dia seguinte, o médico recebeu mensagens, via twitter, de seguidores emocionados com o relato e também foi procurado por jornalistas.

Quando dedilhava o iPad no calor do plantão, Allan Filgueira não imaginava a repercussão que sua história teria. “Foi um desabafo. Eu não pensava em denúncia social. Eu ando revoltado. Esses problemas não são novidade, mas a gente espera que melhore e só piora”, disse. Ninguém do corpo administrativo do Walfredo se solidarizou com o funcionário.

Entre plantonistas, se difundiu a história das “cinco barreiras” que podem separar a indicação cirúrgica do bisturi em dias movimentados: primeiro é preciso conseguir maca, depois a roupa do centro cirúrgico, a sala, a equipe e, por fim, o anestesista (especialidade escassa no HWG). São seis salas de cirurgia e menor número de equipes de plantão. Ontem, eram apenas duas equipes.

O paciente do estômago perfurado passou três horas para ter uma maca e mais três na fila da cirurgia. “São coisas que a faculdade não ensina: a gente decidir quem vai primeiro e quem vai ficar sofrendo”. Como estava compensado, esse paciente ficou atrás de outros com traumas mais graves.

Essa não foi a primeira vez que Allan desnudou o caos do maior hospital do Estado no twitter. “Ninguém liga muito para o Walfredo. A classe média acha que tem plano de saúde e nunca vai precisar dele”. Certo de que divulgar é o único caminho para melhorar, o cirurgião pretende intensificar as denúncias no microblog.

Cooperativa médica ameaça suspeder contrato

Os médicos da Cooperativa Médica do Rio Grande do Norte – que prestam serviços de alta e média complexidade para a Secretaria Estadual de Saúde, além de plantões no hospital Deoclécio Marques, CRO do Walfredo Gurgel e a neonatal do hospital da Polícia Militar – ameaçam suspender dos contratos com a Sesap. Representantes da cooperativa se reuniram na noite de ontem para definir a postura em relação ao contrato com o Governo do Estado, mas até o fechamento desta edição não haviam chegado ao consenso.

Segundo o presidente da Coopmed, Fernando Pinto, o pagamento desses convênios está atrasado há mais de 90 dias. “A dívida está em quase em R$ 2,2 milhões. Os médicos do Deoclécio [Hospital Regional Deoclécio Marques de Lucena, em Parnamirim] não recebem desde agosto; ou seja, o pessoal da ortopedia está há cinco meses sem receber”, disse Fernando Pinto.

Esse hospital, que realiza cerca de mil atendimentos por mês só em ortopedia e 150 cirurgias também terá os contratos suspensos. “O Deoclécio dá suporte ao Walfredo Gurgel. Sem o funcionamento normal do hospital de Parnamirim, a situação do HWG ficará mais complicada”, alertou Fernando Pinto.

Atualmente, cerca de 500 médicos da Coopmed prestam serviços à Sesap. São 36 especialidades entre Neurocirurgia, cirurgia cardíaca e oncologia da LIGA.

27.12.10

A indicação do secretariado da governadora eleita Rosalba Ciarlini, em doses homeopáticas, está engraçada. Eleita com o discurso da mudança, Rosalba vai formando o time principal do seu governo com algumas curiosidades.

Hoje anunciou o engenheiro Demétrio Torres para a Secretaria Extraordinária para Assuntos Relativos à Copa do Mundo (SECOPA) e para o cargo de Diretor Geral do Departamento de Estradas e Rodagens (DER).

Pensando bem, o que danado tem a ver Estradas e Rodagens com Copa do Mundo? A governadora pode até argumentar que virão obras de infraestrutura, mas é tarefa do DER coordenar isso? Não é da Secretaria de Infraestrutura?

O engenheiro Demétrio Torres, entende o que de Esportes, Copa do Mundo, desse negócio bilionário que vai invadir Natal? Ele vai cuidar das estradas e rodagens ou da Copa do Mundo?

O caso do diretor geral da Caern é hilário. Rosalba anunciou o engenheiro Walter Gazi, que presidiu a companhia na gestão Wilma de faria/Iberê Ferreira. Mudou o que na Caern?

Os trabalhadores das plataformas marítimas da Petrobrás no Estado do Rio Grande do Norte decidiram realizar uma paralisação de 24 horas, no próximo dia 31 de dezembro.

O movimento reivindica alterações nos critérios de elaboração das escalas de embarque e correção dos equívocos que têm gerado pontuação negativa.

A decisão foi tomada em assembléia realizada na terça-feira (21), em frente ao portão principal da sede da Petrobrás, em Natal, após os trabalhadores tomarem conhecimento da resposta da Empresa às reivindicações encaminhadas pelo Sindicato.

Em reunião realizada no dia 29 de novembro, a Empresa havia se comprometido em analisar os problemas “caso a caso” e em “apresentar uma solução que estivesse de acordo com o padrão corporativo, até o dia 20”. A resposta, entretanto, foi considerada “decepcionante”. Além da paralisação de 24 horas, os trabalhadores decidiram atrasar os embarques em uma hora, até o dia 31.


Na Ucrânia, os jogadores do FC Start (nome clandestino do Dínamo de Kiev), hoje, são heróis da pátria e o seu exemplo de coragem é ensinado nos colégios. Os possuidores de entradas daquela fatídica partida têm direito a assento gratuito no estádio do Dínamo de Kiev

A história do futebol mundial inclui milhares de episódios emocionantes e comoventes, mas seguramente nenhum seja tão terrível como o protagonizado pelos jogadores do Dinamo de Kiev nos anos 40. 

Os jogadores jogaram um partida sabendo que se ganhassem seriam assassinados e, no entanto, decidiram ganhar. Na morte deram uma lição de coragem, de vida e honra, que não encontra, pelo seu dramatismo, outro caso similar no mundo.

Para compreender a sua decisão, é necessário conhecer como chegaram a jogar aquela decisiva partida, e porque um simples encontro de futebol apresentou para eles o momento crucial das suas vidas.



Tudo começou em 19 de Setembro de 1941, quando a cidade de Kiev (capital ucraniana) foi ocupada pelo exército nazista, e os homens de Hitler aplicaram um regime de castigo impiedoso e arrasaram tudo. 
A cidade converteu-se num inferno controlado pelos nazistas, e durante os meses seguintes chegaram centenas de prisioneiros de guerra, que não tinham permissão para trabalhar nem viver nas casas, assim todos vagavam pelas ruas na mais absoluta indigência.. Entre aqueles soldados doentes e desnutridos, estava Nikolai Trusevich, que tinha sido guarda-redes do Dinamo.

Josef Kordik, um padeiro alemão a quem os nazistas não perseguiam, precisamente pela sua origem, era torcedor fanático do Dinamo. Um dia caminhava pela rua quando, surpreso, olhou para um mendigo e de imediato se deu conta de que era o seu ídolo: o gigante Trusevich.

Ainda que fosse ilegal, mediante artimanhas, o comerciante alemão enganou aos nazistas e contratou o guarda redes para que trabalhasse na sua padaria. A sua ânsia por ajudá-lo foi valorizado pelo jogador, que agradecia a possibilidade de se alimentar e dormir debaixo de um tecto. Ao mesmo tempo, Kordik emocionava-se por ter feito amizade com a estrela da sua equipa.

Na convivência, as conversas sempre giravam em torno do futebol e do Dinamo, até que o padeiro teve uma ideia genial: encomendou a Trusevich que em lugar de trabalhar como ele, amassando pães, se dedicasse a buscar o resto dos seus colegas. Não só continuaria pagando-lhe, como juntos podiam salvar os outros jogadores.

Percorreu o que restara da cidade devastada dia e noite, e entre feridos e mendigos foi descobrindo, um a um, os seus amigos do Dinamo. Kordik deu trabalho a todos, esforçando-se para que ninguém descobrisse a manobra. Trusevich encontrou também alguns rivais do campeonato russo, três jogadores da Lokomotiv, e também os resgatou. Em poucas semanas, a padaria escondia entre os seus empregados uma equipa completa.

Reunidos pelo padeiro, os jogadores não demoraram em dar o seguinte passo, e decidiram, alentados pelo seu protector, voltar a jogar. Era, além de escapar dos nazistas, a única que bem sabiam fazer. Muitos tinham perdido as suas famílias nas mãos do exército de Hitler, e o futebol era a última sombra mantida das suas vidas anteriores.

Como o Dinamo estava enclausurado e proibido, deram um novo nome para aquela equipa. Assim nasceu o FC Start, que através de contactos alemães começou a desafiar a equipas de soldados inimigos e selecções formadas no III Reich.

Em 7 de Junho de 1942, jogaram a sua primeira partida. Apesar de estarem famintos e cansados por terem trabalhado toda a noite, venceram por 7 a 2.. O seu rival seguinte foi a equipa de uma guarnição húngara, ganharam de 6 a 2. Depois meteram 11 golos a uma equipa romena. 
A coisa ficou séria quando em 17 de Julho enfrentaram uma equipa do exército alemão e golearam por 6 a 2.. Muitos nazistas começaram a ficar chateados pela crescente fama do grupo de empregados da padaria e buscaram uma equipa melhor para ganhar a eles. Trouxeram da Hungria o MSG com a missão de derrotá-los, mas o FC Start goleou mais uma vez por 5 a 1, e mais tarde, ganhou de 3 a 2 na revanche.

Em 6 de Agosto, convencidos da sua superioridade, os alemães prepararam uma equipa com membros da Luftwaffe, o Flakelf, que era uma grande equipa, utilizado como instrumento de propaganda de Hitler.

Os nazistas tinham resolvido buscar o melhor rival possível para acabar com o FC Start, que já gozava de enorme popularidade entre o sofrido povo refém dos nazistas. A surpresa foi grande, porque apesar da violência e falta de desportivismo dos alemães, o Start venceu por 5 a 1.

Depois desta escandalosa queda da equipa de Hitler, os alemães descobriram a manobra do padeiro. Assim, de Berlim chegou uma ordem de acabar com todos eles, inclusive com o padeiro, mas os hierarcas nazistas locais não se contentaram com isso. Não queriam que a última imagem dos russos fosse uma vitória, porque acreditavam que se fossem simplesmente assassinados não fariam nada mais que perpetuar a derrota alemã.

A superioridade da raça ariana, em particular no desporto, era uma obsessão para Hitler e os altos comandos. Por essa razão, antes de fuzilá-los, queriam derrotar a equipa num jogo.

Com um clima tremendo de pressão e ameaças por todas as partes, anunciou-se a revanche para 9 de Agosto, no repleto estádio Zenit. Antes do jogo, um oficial da SS entrou no vestiário e disse em russo: -"Vou ser o juiz do jogo, respeitem as regras e saúdem com o braço levantado", exigindo que eles fizessem a saudação nazista.

Já no campo, os jogadores do Start (camisa vermelha e calção branco) levantaram o braço, mas no momento da saudação, levaram a mão ao peito e no lugar de dizer: -"Heil Hitler !", gritaram - "Fizculthura !", uma expressão soviética que proclamava a cultura física.



Os alemães (camisa branca e calção negro) marcaram o primeiro golo, mas o Start chegou ao intervalo do segundo tempo ganhando por 2 a 1. Receberam novas visitas ao vestiário, desta vez com armas e advertências claras e concretas:

-"Se vocês ganharem, não sai ninguém vivo". Ameaçou um outro oficial da SS. Os jogadores ficaram com muito medo e até propuseram-se a não voltar para o segundo tempo. Mas pensaram nas suas famílias, nos crimes que foram cometidos, na gente sofrida que nas arquibancadas gritava desesperadamente por eles e decidiram, sim, jogar.

Deram um verdadeiro baile nos nazistas. E no final da partida, quando ganhavam por 5 a 3, o atacante Klimenko ficou cara a cara com o arqueiro alemão. Deu-lhe um drible deixando o coitado estatelado no chão e ao ficar em frente a trave, quando todos esperavam o golo, deu meia volta e chutou a bola para o centro do campo. Foi um gesto de desprezo, de deboche, de superioridade total. O estádio veio abaixo.

Como toda Kiev poderia a vir falar da façanha, os nazistas deixaram que saíssem do campo como se nada tivesse ocorrido. Inclusive o Start jogou dias depois e goleou o Rukh por 8 a 0. Mas o final já estava traçado: depois desta última partida, a Gestapo visitou a padaria.

O primeiro a morrer torturado em frente a todos os outros foi Kordik, o padeiro. Os demais presos foram enviados para os campos de concentração de Siretz. Ali mataram brutalmente a Kuzmenko, Klimenko e o Trusevich, que morreu vestido com a camiseta do FC Start. Goncharenko e Sviridovsky, que não estavam na padaria naquele dia, foram os únicos que sobreviveram, escondidos, até a libertação de Kiev em Novembro de 1943. O resto da equipa foi torturado até a morte.

Ainda hoje, os possuidores de entradas daquela partida têm direito a um assento gratuito no estádio do Dinamo de Kiev. Nas escadarias do clube, custodiado em forma permanente, conserva-se actualmente um monumento que saúda e recorda aqueles heróis do FC Start, os indomáveis prisioneiros de guerra do Exército Vermelho aos quais ninguém pôde derrotar durante uma dezena de históricas partidas, entre 1941 e 1942.

Foram todos mortos entre torturas e fuzilamentos, mas há uma lembrança, uma fotografia que, para os torcedores do Dinamo, vale mais que todas as jóias em conjunto do Kremlin. Ali figuram os nomes dos jogadores. Abaixo a única foto que se conserva da heróica equipa do Dinamo e o nome dos seus jogadores. Goncharenko e Sviridovsky, os únicos sobreviventes, junto ao monumento que recorda os seus colegas.

Na Ucrânia, os jogadores do FC Start hoje são heróis da pátria e o seu exemplo de coragem é ensinado nos colégios. 

No estádio Zenit uma placa diz "Aos jogadores que morreram com a cabeça levantada ante o invasor nazista".

26.12.10

INTOLERÂNCIA

FOLHA.COM IZABELA MOI Editora-assistente da Ilustríssima

"Mithly" não é uma revista como as outras, mas não porque deve ser lida da direita para a esquerda. Lançada em abril, é a primeira revista gay a circular em árabe num país de maioria muçulmana, o Marrocos. O pioneirismo conseguiu uma divulgação inédita para a causa, mas vem causando polêmica nos jornais locais e o silêncio do governo do rei Mohammed 6º. No país, "atos licenciosos ou contra a natureza cometidos com indivíduos do mesmo sexo" podem ser punidos com prisão de seis meses a três anos, além de eventuais multas.

O site da revista (mithly.net), em árabe, já atingiu, desde sua criação, mais de 1 milhão de visitantes únicos, segundo Samir Bergachi, redator-chefe da "Mithly". Mas o fenômeno mesmo é que os 200 exemplares impressos em Madri e distribuídos em Rabat, a capital marroquina, de mão em mão, gratuitamente, na mais rigorosa clandestinidade, viraram notícia na Europa e nos EUA. O impacto do papel e de ser escrito em árabe clássico deu destaque internacional à revista, que deixou de ser uma rede de militância na internet para se tornar um instrumento de ação política inédito no mundo islâmico.

IGUAL A MIM

Para batizar a revista, foi necessário também sustentar o uso de um termo novo. "Homossexual" não tem equivalente em árabe, a não ser os pejorativos "zamel" (efeminado) ou "chaddh" (perverso). "Mithly" -- em tradução literal, "igual a mim" -- ganhou o que os especialistas chamam de "nova carga semântica", quando um sufixo ("y") amplia o significado de uma palavra já existente ("mithl", igual).

A publicação é iniciativa da associação Kif Kif, legalizada em 2005 na Espanha. Mais do que uma rede de contatos entre compatriotas gays de Madri, Paris, Roma e Montréal, os fundadores, todos marroquinos expatriados, pretendiam interferir na vida do país que deixaram para trás. A sede da organização em Rabat tem três mil inscritos, segundo seus líderes. A identidade dos associados permanece escondida; a Kif Kif nem sequer é legalizada no país. "O governo não responde nossas cartas", diz Bergachi, estudante de jornalismo da Universidade Complutense de Madri. "O que temos é o silêncio."

Escritórios fora do Marrocos, com 50 a 60 militantes em média, captam pequenas doações que, sozinhas, mantêm o site, a consultoria legal e, mais recentemente, a revista "Mithly".

ELTON JOHN

Num projeto gráfico simples e com apenas 20 páginas, a revista não faz provocações nem procura atrair leitores com consumismo, pornografia ou "nus artísticos". Engajado, o primeiro número traz um artigo sobre o Dia Internacioial da Mulher, testemunhos de homossexuais que "saíram do armário", repercute as manifestações públicas contra o show do cantor britânico Elton John no festival Mawazine, em Rabat, e traz um conto do escritor Abdellah Taïa.

O marroquino Taïa, 36, vive autoexilado em Paris há dez anos. Por escrever em francês, alcançou boa projeção no circuito literário internacional: publicou três romances por uma das grifes do livro francês, a editora Seuil. Participa de festivais literários internacionais, como o Beiruth 39 (com 39 autores de menos de 39 anos, selecionados pela Unesco), e o mais famoso de todos, o de Hay-on-Wye, no Reino Unido (que começou no dia 27). Os romances de Taïa são todos autobiográficos, ficção misturada às memórias de sua vida na pequena cidade de Salem. Até mesmo no Marrocos, onde a Unesco registra 50% de analfabetismo, os livros de Taïa vendem bem: segundo ele, "Le Rouge du Tarbouche" ["O vermelho do turbante"] vendeu 15 mil exemplares. Como ele diz, é "muito, muitíssimo". Dificilmente os escritores brasileiros com sua idade e projeção atingem esse resultado.

O TEMPO DA VERGONHA

Taïa é um ícone gay no Marrocos desde que, em 2007, foi capa da revista semanal de informação "Tel Quel", editada em francês. Com tiragem de 20 mil exemplares -- apenas 100 vezes a da "Mithly" --, é a mais progressista do país e acaba de ganhar uma irmã em árabe. Além de expor-se numa entrevista, Taïa publicou o texto "A homossexualidade explicada à minha mãe".

E por quê? "Porque nós, homossexuais, estamos emprestando a voz a uma sociedade que está presa no silêncio de uma ditadura." A situação é parecida nos outros países da África do Norte. Na Argélia, "todos os culpados de atos homossexuais são punidos com dois meses a dois anos de prisão" (artigo 338 do Código Penal), além de multa. Na Tunísia, o artigo 230 do Código Penal prevê prisão de até três anos por "sodomia consentida entre adultos". Como em inúmeros outros exemplos ao redor do mundo, os gays marroquinos são os primeiros a reagir à repressão moral -- que eles também foram os primeiros a sofrer.

EFEBOS E CORTESÃS

Embora escorada na tradição, a atual cultura repressiva nos países muçulmanos é um dado cultural relativamente novo, associado à recente islamização política. Abdellah Taïa cita o poeta árabe Abu Nuwas (756-814), que escrevia cânticos de amor aos rapazes. "É um clássico, e ainda é estudado nas escolas públicas", diz ele. "Todos sabem que era homossexual."

O mesmo acontece com Al-Jahiz (781-869), que escreveu um livro sobre "efebos e cortesãs", "um diálogo entre homens que amam mulheres e homens que amam homens". Nas "Mil e Uma Noites" (os manuscritos datam dos séculos 9º ao 18), não faltam histórias que narram, metaforicamente, relações de amor sensual entre pessoas do mesmo sexo. Não se trata de querer ver uma linhagem gay na tradição literária árabe. Segundo Mamede Mustafa Jarouche, 47, que assina a mais recente tradução brasileira do "Livro das Mil e Uma Noites" (Editora Globo) e dá aulas de árabe na USP, "nos tratados eróticos clássicos, e em boa parte da narrativa literária, não há exatamente uma visão essencialista sobre a escolha do parceiro". Jarouche, que morou no Cairo, conta que, em 2000, uma editora do governo egípcio teve a gráfica invadida por fundamentalistas que rasgaram livros de Abu Nuwas, que viveu, vale repetir, no século 8. E em 2001, na feira do livro do Cairo, houve uma tentativa de censurar a tradução árabe de "A sexualidade no Islã" (1975), do tunisiano Abdelwahab Bouhdiba, publicado no Brasil pela editora Globo.

SE PECOU, NÃO DIVULGUE

Para a comunidade islâmica do Brasil, a tentativa de moralizar a literatura é uma volta aos "critérios claros" da religião. Um de seus líderes, o xeque Jihad Hassan Hammadeh, 44, diz que não há margem para dúvida na interpretação da lei corânica. "Homossexualidade é proibida, é pecado."

Nascido na Síria e vivendo em São Paulo desde 1991, o xeque não comenta os casos que ocorrem na comunidade islâmica que dirige. Mas não deixa de ser um tanto brasileira a solução que propõe: para ele, a religião dá ao crente a possibilidade de não divulgar seu pecado, para que haja espaço para voltar atrás. Assim, o acerto de contas acontecerá entre o fiel e Deus. "Se pecou, não divulgue."

COLONIALISMO MILITANTE

Os marroquinos da "Mithly" estão divulgando, e além da repressão do Estado, recebem objeções intelectuais: publicar uma revista gay poderia ser um programa elitista e ocidental.

Paulo Hilu Pinto, 42, antropólogo da Universidade Federal Fluminense (UFF), especialista na Síria contemporânea, enxerga o risco de "colonialismo militante" que pode haver na iniciativa. "O movimento gay organizado é libertador para quem?", questiona. "Um morador da periferia, que faz sexo com parceiros do mesmo sexo, pode nunca ter se enxergado assim." Hilu Pinto acredita que, com a moral religiosa, o gay pobre acaba se vendo como pecador. Os editores da "Mithly", de fato, pertencem a uma elite intelectual que mora e estuda na Europa. Os escassos 200 exemplares que circularam na capital marroquina não deixam de ser um sinal de elitismo, embora a íntegra da revista esteja disponível (e de graça) na internet. Mas não importa a tiragem: a mera existência da revista já é um respiro no abafado ambiente cultural do Marrocos.

INTEGRAR

O sociólogo marroquino Mohammed Mezziane, 47, afirma que a "Mithly" não propõe uma ruptura com o Estado ou com a religião. Pelo contrário, seu objetivo é integrar o discurso homossexual na vida do país. Cautelosos, os editores da revista ainda não reivindicam os temas da pauta ocidental, como o casamento gay ou as pensões e planos de saúde para parceiros do mesmo sexo.

O número 2 da "Mithly" sairá nesta terça, 1º/6, apenas na internet, com reportagem sobre o alto índice de suicídio entre os homossexuais. O terceiro número está prometido para o papel: julho é o mês do orgulho gay, e também é o aniversário de cinco anos da associação Kif Kif. Os editores preparam uma reportagem sobre o lesbianismo no mundo árabe, história ainda mais escondida. Samir Bergachi, o redator-chefe, diz que quando os tradicionalistas querem mostrar os riscos da descriminalização da homossexualidade no Marrocos, exibem imagens do Carnaval carioca.

A associação Kif Kif, segundo Bergachi, foi convidada para participar do congresso internacional de direitos LGBT, em 2011, no Rio de Janeiro. "Finalmente vou conhecer o Rio", comemora.

Artigo - Cultura

Fábio Farias – www.revistacatorze.com.br

“Antes de começar o texto, queria agradecer a Sávio Hackradt pelo gentil convite para escrever neste blog. Obrigado Sávio!”

A diferença é de um abismo, daqueles bem grandes. Gestores públicos de Natal e artistas parecem viver em trincheiras distintas quando o assunto é política cultural. De um lado, há ainda uma visão arcaica do que é a cultura local. Do outro, um olhar contemporâneo do que é a arte e do potencial cultural da cidade.

No meio disso, existe a imprensa e seu eterno conceito de “artista da terra”. Algo tão impróprio, que o dramaturgo Henrique Fontes permitiu-se a seguinte conclusão: artista da terra é minhoca, cara pálida. Em termos, é bom começar: acho que todos hão de concordar que a arte dialoga com a sociedade na qual está inserida. Ela é uma espécie de espelho que reflete a nossa própria vida, as nossas relações sociais e os valores agregados a ela.

Natal cresceu. Não é mais uma cidadezinha de 20 mil habitantes – apesar de muitas vezes agir como tal – é uma metrópole com quase um milhão de pessoas, dos mais diversos gentílicos e dos mais diversos países. Não somos mais uma ilha de “comedores de camarão”. E, por conta disso, as nossas peças de teatro, as nossas apresentações de dança, os nossos livros e eventos culturais – que tem à frente agitadores culturais sensíveis – refletem essa mudança na cidade.

Temos uma produção artística pujante. É no teatro, na dança e na música que mais percebemos essas novas características. Nossa arte é instigante, experimental e talentosa, é repleta de criações que partem da realidade urbana e metropolitana que vivemos hoje, que mexe com sensações e preconceitos que temos e nos faz refletir.

Enquanto o pensamento artístico é contemporâneo, o pensamento dos gestores públicos – não falo aqui só do presidente da FJA ou da Funcarte, falo dos prefeitos, governadores e até alguns parlamentares – é arcaico, limitado, para não dizer completamente infantilizado quanto à importância de preservar e incentivar a cultura que é produzida hoje em Natal.

É possível até dividir os políticos daqui em dois grandes grupos: as dos completos ignorantes, que consomem e pensam a cultura dos colunistas sociais e das modinhas da high-society. Estes, é bom frisar, são os que têm os maiores déficits educacionais e estão em número significativo. E a dos memorialistas – muito em voga por também – pessoas cujo pensamento artístico-cultural está paralisado em algum lugar dos anos 50/60 e que ainda acham que a cultura natalense se resume a um bocado de nostalgias.

O resultado dessa diferença se reflete diretamente nas ações em cultura da cidade. Não há nenhuma ação pública – nem umazinha sequer – que consiga representar essa pujança artística natalense produzida pelos novos artistas locais. Os grandes eventos culturais, regados a dinheiro, no máximo retransmitem essa visão cultural arcaica dos próprios gestores e acabam por atrair os atores, apenas, por pagarem melhor. Entre as rodas de artistas, há muito que é dito: o Auto de Natal não passa de um mero 13º do artista potiguar.

O problema disso tudo fica na falta de políticas de manutenção dos grupos e da criação de novos produtos. A relação de trabalho entre os órgãos oficiais e os artistas também sai prejudicado. A situação se agrava quando o poder público começa a atrasar os pagamentos – como ocorre com certa freqüência na Funcarte e na Fundação José Augusto. E aí, nesse ponto, a divergência chega a virar, às vezes, atos como foi o protesto realizado nesta semana em frente à FJA.

Muito mais do que um problema apenas do setor público, a falta também de um empresariado mais sensível às causas culturais complica ainda mais a situação do artista local. As empresas privadas locais, pelo contrário, por visarem apenas ao lucro, tendem a financiar a arte meramente comercial, que nada tem a ver com a identidade de Natal.

Atualmente, apenas a Universidade Federal do Rio Grande do Norte e o Governo Federal e a sua política de editais e leis de incentivo feitas de oito anos para cá é consegue se tornar um porto seguro para quem quer viver de arte localmente. Uma pena. O poder público local deveria, por obrigação, incentivar e financiar a arte e os espaços artísticos. A cultura é um importante capital turístico e educacional para cidade, ela cria a identidade e tem grande potencial econômico e simbólico, se for bem cultivada.

Mas o problema nasce, sobretudo, da falta de uma educação formal entre os políticos e da ausência de um diálogo entre os dois lados. Isso torna a situação dramática e sem perspectivas de mudanças para o futuro. E os problemas, se não forem resolvidos à base do diálogo e da compreensão da arte produzida na cadeia local, tendem a piorar com o passar dos anos. É preciso sensibilidade artística em uma administração mais democrática, que ouça e detecte os anseios da classe para mudar esse quadro. Caso não aconteça, Natal estará condenada ao atraso cultural e à eterna insatisfação dos artistas.

25.12.10

“O mais grave de tudo é o desastre cultural que estas festas de Natal pervertidas estão causando na América Latina”, escreveu o escritor colombiano Gabriel García Márquez, há 30 anos, em artigo para o El País. No texto, Gabo critica a influência norte-americana na forma latino-americana de festejar o Natal.


Por Gabriel García Márquez

Ninguém mais se lembra de Deus no Natal. Há tanto barulho de cornetas e de fogos de artifício, tantas grinaldas de fogos coloridos, tantos inocentes perus degolados e tantas angústias de dinheiro para se ficar bem acima dos recursos reais de que dispomos que a gente se pergunta se sobra algum tempo para alguém se dar conta de que uma bagunça dessas é para celebrar o aniversário de um menino que nasceu há 2 mil anos em uma manjedoura miserável, a pouca distância de onde havia nascido, uns mil anos antes, o rei Davi.

Cerca de 954 milhões de cristãos – quase 1 bilhão deles, portanto – acreditam que esse menino era Deus encarnado, mas muitos o celebram como se na verdade não acreditassem nisso. Celebram, além disso, muitos milhões que nunca acreditaram, mas que gostam de festas e muitos outros que estariam dispostos a virar o mundo de ponta cabeça para que ninguém continuasse acreditando. Seria interessante averiguar quantos deles acreditam também no fundo de sua alma que o Natal de agora é uma festa abominável e não se atrevem a dizê-lo por um preconceito que já não é religioso, mas social.

O mais grave de tudo é o desastre cultural que estas festas de Natal pervertidas estão causando na América Latina. Antes, quando tínhamos apenas costumes herdados da Espanha, os presépios domésticos eram prodígios de imaginação familiar. O menino Jesus era maior que o boi, as casinhas nas colinas eram maiores que a Virgem e ninguém se fixava em anacronismos: a paisagem de Belém era complementada com um trenzinho de arame, com um pato de pelúcia maior que um leão que nadava no espelho da sala ou com um guarda de trânsito que dirigia um rebanho de cordeiros em uma esquina de Jerusalém.

Por cima de tudo, se colocava uma estrela de papel dourado com uma lâmpada no centro e um raio de seda amarela que deveria indicar aos Reis Magos o caminho da salvação. O resultado era na realidade feio, mas se parecia conosco e claro que era melhor que tantos quadros primitivos mal copiados do alfandegário Rousseau.

A mistificação começou com o costume de que os brinquedos não fossem trazidos pelos Reis Magos – como acontece na Espanha, com toda razão –, mas pelo menino Jesus. As crianças dormíamos mais cedo para que os brinquedos nos chegassem logo e éramos felizes ouvindo as mentiras poéticas dos adultos.

No entanto, eu não tinha mais do que cinco anos quando alguém na minha casa decidiu que já era hora de me revelar a verdade. Foi uma desilusão não apenas porque eu acreditava de verdade que era o menino Jesus que trazia os brinquedos, mas também porque teria gostado de continuar acreditando. Além disso, por uma pura lógica de adulto, eu pensei então que os outros mistérios católicos eram inventados pelos pais para entreter aos filhos e fiquei no limbo.

Naquele dia – como diziam os professores jesuítas na escola primária –, eu perdi a inocência, pois descobri que as crianças tampouco eram trazidas pelas cegonhas desde Paris, que é algo que eu ainda gostaria de continuar acreditando para pensar mais no amor e menos na pílula.

Tudo isso mudou nos últimos 30 anos, mediante uma operação comercial de proporções mundiais que é, ao mesmo tempo, uma devastadora agressão cultural. O menino Jesus foi destronado pela Santa Claus dos gringos e dos ingleses, que é o mesmo Papai Noel dos franceses e aos que conhecemos de mais. Chegou-nos com o trenó levado por um alce e o saco carregado de brinquedos sob uma fantástica tempestade de neve.

Na verdade, este usurpador com nariz de cervejeiro é simplesmente o bom São Nicolau, um santo de quem eu gosto muito e porque é do meu avô o coronel, mas que não tem nada a ver com o Natal e menos ainda com a véspera de Natal tropical da América Latina.

Segundo a lenda nórdica, São Nicolau reconstruiu e reviveu a vários estudantes que haviam sido esquartejados por um urso na neve e por isso era proclamado o patrono das crianças. Mas sua festa é celebrada em 6 de dezembro, e não no dia 25. A lenda se tornou institucional nas províncias germânicas do Norte no final do século 18, junto à árvore dos brinquedos e a pouco mais de cem anos chegou à Grã-Bretanha e à França.

Em seguida, chegou aos Estados Unidos, e estes mandaram a lenda para a América Latina, com toda uma cultura de contrabando: a neve artificial, as velas coloridas, o peru recheado e estes quinze dias de consumismo frenético a que muito poucos nos atrevemos a escapar.

No entanto, talvez o mais sinistro destes Natais de consumo seja a estética miserável que trouxeram com elas: esses cartões postais indigentes, essas cordinhas de luzes coloridas, esses sinos de vidro, essas coroas de flores penduradas nas portas, essas músicas de idiotas que são traduções malfeitas do inglês e tantas outras gloriosas asneiras para as quais nem sequer valia a pena ter sido inventada a eletricidade.

Tudo isso em torno da festa mais espantosa do ano. Uma noite infernal em que as crianças não podem dormir com a casa cheia de bêbados que erram de porta buscando onde desaguar ou perseguindo a esposa de outro que acidentalmente teve a sorte de ficar dormido na sala.

Mentira: não é uma noite de paz e amor, mas o contrário. É a ocasião solene das pessoas de quem não gostamos. A oportunidade providencial de sair finalmente dos compromissos adiados porque indesejáveis: o convite ao pobre cego que ninguém convida, à prima Isabel que ficou viúva há 15 anos, à avó paralítica que ninguém se atreve a exibir.

É a alegria por decreto, o carinho por piedade, o momento de dar presente porque nos dão presentes e de chorar em público sem dar explicações. É a hora feliz de que os convidados bebam tudo o que sobrou do Natal anterior: o creme de menta, o licor de chocolate, o vinho passado.

Não é raro, como aconteceu frequentemente, que a festa acabe a tiros. Nem tampouco é raro que as crianças – vendo tantas coisas atrozes – terminem acreditando de verdade que o menino Jesus não nasceu em Belém, mas nos Estados Unidos.

Mercado norte-americano lança a caixa Studies of Tom Zé, com quatro discos de vinil remasterizados, e revê carreira do baiano de 1975 a 2008

Jotabê Medeiros - O Estado de S.Paulo

A amor de Zé pelos paradoxos insolúveis. A frase é do ensaísta americano Christopher Dunn, professor da Tulane University, em New Orleans, nas notas de encarte da caixa Studies of Tom Zé - Explaining Things So I Can Confuse You, lançada pela Luaka Bop nos Estados Unidos (US$ 70).

Dunn usou a expressão para se referir às músicas de Estudando o Samba, um dos quatro álbuns em vinil remasterizados contidos no material. Editada criteriosamente e com notável apuro crítico, a caixa é um bê-á-bá da carreira do baiano, remontando sua trajetória entre os anos de 1975 e 2008. Não é um balanço da carreira porque Tom Zé é uma obra em progresso, nesse momento deve estar escarafunchando em algo que nos projete novamente no futuro.

Além dos discos de vinil, raridades que qualquer amante da música brasileira disputará com sofreguidão, há um CD com conversas entre Tom Zé, David Byrne (Talking Heads e cabeça falante do selo Luaka Bop) e Arto Lindsay, papos levados no inverno de 1993 - era do início da ressurreição de Tom Zé.

Tom Zé é um dínamo da música, e seu reconhecimento internacional tardio ainda assombra. O mesmo Christopher Dunn disse ao Estado, no ano passado, ao lançar seu livro Brutalidade Jardim (Editora da Unesp) que o fato de músicos famosos dos Estados Unidos e Europa reconhecerem tardiamente algumas sonoridades tropicalistas e pós-tropicalistas aconteceu porque isso tinha a ver com seus próprios projetos musicais. É o caso, por exemplo, da imediata empatia entre Tom Zé e a banda Tortoise, também experimentalista.

Fazer uma trilogia de álbuns sobre gêneros musicais não era uma ideia original de Tom Zé. Para Dunn, seu retorno a Estudando o Samba (1975) com os discos Estudando o Pagode (2005) e Estudando a Bossa (2008) foi mais uma forma de examinar o próprio significado do álbum pioneiro em sua própria perspectiva da música.

"Não sou gênio de nada. Sou um dos mais simplórios dos invencionistas", diz Tom Zé. Basta ler a análise que Dunn faz dos seus álbuns que já dá para desconfiar dessa afirmação plena de humildade. "Suas canções escrachadas e resolutas embalam subnarrativas de teoria musical, ondas intelectuais e disputas filosóficas", escreveu Ben Ratliff no New York Times sobre o material.

Seu experimentalismo, aliado a arranjos complexos (que podem soar frugais ao desavisado), não é coisa de amador, decisivamente. "Logo cedo percebi minha incapacidade de trabalhar naquilo que hoje se chama mainstream, na coisa tradicional, bem-feita, bonita", disse Tom ao Estado, há algum tempo. "Aí me dirigi para um extremo onde você está quase no ridículo e às vezes até no razoável. Então trabalho ali entre o som e o ruído, e no começo ninguém dizia que o que eu fazia era música. Era apenas alguma coisa que se escutava. Só passou a ser chamada de música quando fiz aquela experiência radicalmente suicida. Foi quando fui participar do programa Escada para o Sucesso e fiz uma música chamada Rampa para o Fracasso."

O "jornalismo cantado" de Tom tem a ironia e o humor como armas, e um radar constantemente apontado para o novo. Instado a falar sobre a falta de senso revolucionário na música de hoje, ele se apressa a demolir a afirmação: "O violão solitário e multiplicado em timbres de Lucas Santtana é um enfrentamento. Tatit e o Grupo Rumo se despediram - mas é mentira. A plena explosão de (Fernanda) Takai ainda treme chão. Os arietes de Zélia, de Salmaso, de Jussara, ainda derrubam castelos. A internetada de Mallu ainda vence gravadoras. Todas essas cantoras novas, Aydar, Andréa Dias, Márcia Castro, De La Riva, Anelis, esse batalhão de romper cerca, ainda promete. Há tantas outras coisas, Acho que a década foi satisfatoriamente revolucionária."

João Marcos Coelho - O Estado de S.Paulo

Por que ré bemol? Foi o próprio Chopin quem definiu assim sua estranha relação com a condessa Delfina Potocka. Um documentário inglês revê esta história

Nenhum outro compositor preenche como Chopin a figura romântica e andrógina do criador musical ao mesmo genial e frágil. Nariz adunco, apenas 44 quilos, angustiava-se ao apresentar-se em público (só fez 30 recitais/concertos em sua vida). Viveu com a escritora francesa que, além do nome masculino, George Sand, vestia quase exclusivamente terninho e fumava charuto. Ela qualificou oito dos nove anos de romance como de "devoção maternal". Morreu aos 39 anos de tuberculose, após ter revolucionado a música para piano de modo definitivo. Se a literatura pianística fosse uma Bíblia, Bach seria o Velho Testamento com os 48 prelúdios e fugas do Cravo Bem Temperado e Chopin o Novo Testamento com os 24 estudos opus 10 e 25 e os 24 prelúdios opus 28. Mas, para o grande público, Chopin é o autor das polonaises, mazurcas e sobretudo os noturnos - o patriota que pediu para ter seu coração arrancado de seu peito e levado à sua querida Polônia natal.

O docudrama O Mistério de Chopin - o estranho caso de Delfina Potocka, originalmente lançado em VHS em 1999 - data dos 150 anos de morte do compositor - desconstrói esta imagem angelical. Foi um ranger de dentes furioso entre melômanos e musicólogos, além de políticos poloneses e do Instituto Chopin de Varsóvia.

Amante insaciável. Também, não era para menos. Tirou-se do armário a história do romance turbulento do compositor com a condessa Delfina Potocka, uma autêntica devoradora de homens nas primeiras décadas do século 19. E, a julgar pelas 108 cartas por ela recebidas de Chopin, que sua bisneta, Paulina Czernicka, divulgou logo após a Segunda Guerra Mundial, em Varsóvia, o compositor assumiu-se como amante tórrido, antissemita convicto e quase antipatriota. Ou seja, tudo que a posteridade gostaria de esquecer sobre ele.

O docudrama, misto de documentário com imagens de época e recriações dramáticas, agora relançado em DVD pela Arthaus Musik no mercado internacional, é assinado pelo cineasta inglês Tony Palmer, emérito especialista em filmes de temática musical, autor de mais de uma centena de documentários musicais, que vão dos Beatles a Stravinski, do Festival de Salzburgo a Frank Zappa e Maria Callas.

Valsa do minuto. Para ficarmos no domínio dos docudramas de colorações ideológicas, também é seu o antológico e igualmente super controverso Testemunho, baseado no livro de Solomon Vokov, que mostra um Shostakovich como dissidente soviético enrustido.

Um ré bemol diferente. Foi assim que Chopin definiu a companheira nestas controversas e tórridas cartas. Dedicou-lhe seu segundo concerto para piano e orquestra, a célebre Valsa do Minuto, opus 64, no. 1 - e pediu-lhe para cantar e dançar em seu leito de morte. O romance começou em Varsóvia e permaneceu até a morte do compositor, em 1849. "É estranho e maravilhoso que a mesma energia que se usa para fertilizar uma mulher, isto é, para criar um homem, seja usada também para criar uma obra de arte". Este raciocínio tipicamente freudiano fez os especialistas desconfiarem da autenticidade das cartas. Mas ele beira a pornografia quando diz a sua Findelka que "desejo estar dentro de você, beijar teus mamilos, tuas pernas, saborear a doce entrada de tua alma, teu ré bemol, eu diria". Tudo temperado por sua música interpretada pela excelente pianista russa Valentina Igoshina.

Este erotismo certamente é novidade em Chopin. Por outro lado, a consciência de formar um estranho casal com Sand o faz dizer, nessas cartas, que "sei que nos chamam de Madame Chopin e Monsieur Sand". Palmer diz que não acredita nem desacredita nas cartas, mas esclarece que elas ajudam a entender melhor a intensidade de sua música. O antissemitismo, por exemplo, já era conhecido em cartas autênticas - mas o assunto dificilmente vem à tona porque mancha sua angelical figura.

Estranho suicídio. O caso é que Paulina Czernicka jamais mostrou os originais destas cartas - apenas cópias por ela datilografadas. Isso enfraqueceu demais o achado. A fortíssima reação na Polônia tem a ver, lógico, com a maculação da imagem de um herói nacional. Mas não precisavam, como sugere Palmer, forjar um suicídio para calar a voz da bisneta da "notoriamente hospitaleira vulva" da bela e refinada cantora Delfina Potocka, na grosseira expressão de um dos mais recentes biógrafos de Chopin, Jeremy Siepmann.

Musicalmente, além de criticar seu amigo Franz Liszt ("ele se apropria das obras dos outros sem cerimônia"), há frases interessantes, como a de que "não sou a pessoa certa para dar concertos. O público me intimida. A respiração da plateia me asfixia, os olhares do público me paralisam". Ou então as que Palmer coloca em sua boca no leito de morte, não sei se tiradas destas cartas a Delfina: "Os sons existem antes das palavras; a palavra é apenas a modificação de um som. As palavras criam a linguagem, mas os sons criam a música. E a arte de manipular o som é chamada de música. Nossos mais profundos sentimentos se expressam não em palavras, mas na música."

Estas 108 cartas sem dúvida nos ajudam a compor um retrato mais complexo e profundo de Chopin. Pode não ser o oficial nem o correto, mas é bem mais interessante que a correspondência oficial do compositor, disponível em edição nacional, da Editora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, com 700 maçantes páginas, de 2008.

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