CALANGOTANGO não é um blog do mundo virtual. Não é uma opinião, uma personalidade ou uma pessoa. É a diversidade de idéias e mãos que se juntam para fazer cidadania com seriedade e alegria.

Sávio Ximenes Hackradt

15.1.13


Foi um domingo movimentado – manhã de maré baixa, propícia para uma boa caminhada com Thereza. Um chuvisco inesperado, de uma nuvem passageira, não atrapalhou nosso passeio.

Carlos Roberto de Miranda Gomes, escritor-veranista

Um mergulho rápido e retorno à casa para despojar do corpo o sal do mar. Uma cerveja gelada e o aguardo para o churrasco que Ernesto prepara como ninguém.

No compasso da espera, subo ao alpendre do meu quarto e, no “ventre da minha rede” continuo as leituras cotidianas. Desta feita “O Vendedor de Poesias”, de Iveraldo Guimarães, edição Sebo Vermelho, do finalzinho de 2012.

Cumpridas as tarefas culinárias a “madorna” de fim de almoço e o retorno às leituras. Dopo, antes do sol buscar o seu aconchego, meditei um pouco sobre o que li do livro de Iveraldo e, tomando por empréstimo o prefácio de Vicente Serejo, me transportei para um passado bem distante, na velha Redinha dos anos 50, a qual me pertenceu por umas dez temporadas, onde a luz elétrica cessava pelas 20 horas dando lugar às lamparinas e candeeiros, geradores de sombras distorcidas da realidade, permitindo o descortinar mágico das luzes de Natal.


Dominava os seus contornos e as suas pedras mesmo nas noites sem luar, no percurso Maruim – Redinha Clube, que era iluminado por lâmpadas “Colleman”até às 22,30 horas, num tempo de pardais no verde dos quintais, para lá ouvir as estórias do “fogo fátuo” e aparições, fazendo com que o retorno à casa se fizesse com arrepios adrenalínicos.

Na Redinha, com outros meninos da minha idade – lembro de Gotardo Emerenciano, pegávamos siris nas gamboas dos manguezais que ficavam a poucos metros dos fundos das nossas casas.

Compartilhavam daquele recanto, que eu me lembro, Seu Aldemário e seu Nelson (vizinhos dos dois lados), Seu Pitota, Dr. Dante de Melo Lima, Professor Ildefonso Emerenciano, Seu Maranhão, pai de Neilson (foi Juiz e morreu em um desastre de automóvel num dia 20 de janeiro do ano que não lembro), com quem fazíamos a travessia no barco de Ferrinho para assistir o futebol em Natal. Recentemente estive no Maruim e só encontrei duas casas de pé, a que foi nossa e a de Seu Nelson.

Em nossos passeios de bicicleta até o rio doce (hoje a decadente Redinha nova), onde só existia a natureza, era possível “brechar” encontros amorosos.

O empinamento de corujas frágeis era o esporte predileto da meninada, concorrendo com pipas possantes dos meninos maiores. Os adultos preferiam o voleibol em frente ao Redinha Clube.

Mas não foi só reminiscências da praia, cuja casa foi vendida por papai por dois motivos relevantes – uma aventura num barco que me pôs em perigo de vida e a morte do meu cunhado José Gondim, que também era veranista. Lembrei-me, também, da “rua descalça” (Meira e Sá) onde morava, das batalhas de carrapateiras nos esconderijos formados pela erosão das chuvas, deixando à mostra os canos do Saneamento; das sessões das sextas-feiras no cinema São Luiz, transportado pelos bondes do Alecrim, cuja linha findava na Rua Amaro Barreto, proximidades de onde hoje existe o relógio da Praça Gentil Ferreira.

Papai fixava o retorno para as 21,30 horas e, quando o filme era mais longo e o seriado vinha em seguida, a contragosto era forçado a abortar o capítulo para cumprir o horário e, se ao chegar à Amaro Barreto não vislumbrava sinal do bonde, colocava sebo nas canelas e vinha mesmo na “pedagogia”. Papai no portão aguardava-me para fechar o cadeado e o resto da casa para o sono noturno.

Foi nesse tempo que encontrei a minha Anajá e conheci algumas Zúlias. Contudo, o tempo foi muito breve, pois logo me voltei para coisa séria e então compreendi “como dói o amor quando ele fica maior que o coração”.

As sombras estão chegando com pouca mansuetude, “misturando-se com a claridade moribunda”, permitindo ver a silhueta dos pássaros que retornam para os seus ninhos no restinho de Mata Atlântica que remanesce nas cercanias de Cotovelo.

Não dá mais para enxergar com luz natural e acender a lâmpada não vale, perde a graça! 

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