CALANGOTANGO não é um blog do mundo virtual. Não é uma opinião, uma personalidade ou uma pessoa. É a diversidade de idéias e mãos que se juntam para fazer cidadania com seriedade e alegria.

Sávio Ximenes Hackradt

12.12.12


O título desse texto é uma paráfrase da música “Todo Carnaval Tem Seu Fim” cantada por Los Hermanos, onde o refrão curto diz: Deixa eu brincar de ser feliz, deixa eu pintar o meu nariz...

Por Leide Franco - @LeideFranco

Hoje é segunda-feira de cinzas para muita gente. Dia de ressaca física ou moral para os que foram e ressaca com gosto de “fui obrigado a engolir isso” para os que ficaram curtindo o trago amargo do barulho infernal, das ruas bloqueadas e tendo que ler notícias do tipo:

>Limpeza Pública
Carnatal sem lixo: Garis limpam área para o 2º dia da festa

Quem passou no circuito do Carnatal na manhã desta sexta-feira se deparou com diversos garis encarregados de deixar as vias limpas para a realização do segundo dia da micareta. A Companhia de Serviços Urbanos (Urbana) estará realizado o mutirão de limpeza após cada dia do evento em dois momentos diferentes, sendo um pela manhã e outro no período da tarde, antes do início da festa.

Segundo o gari Oliveira Rodrigues, a limpeza hoje começou a ser feita desde às 7h. Ä recomendação que nos foi dada foi para limpar o máximo que puder", disse o trabalhador. Ao todo cerca de 400 pessoas estarão trabalhando para manter as ruas devidamente limpas. De acordo com o encarregado da Urbana na Zona Sul, Julio Cesar Formiga, até um caminhão pipa estará ajudando a diminuir o odor deixado pelo evento.
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Pois é. Muito antes da super festa começar, vários dias antes, os corredores vinham sendo preparados para receber o carnatal. Os canteiros eram de causar inveja em qualquer morador natalense. Uma folha sequer não caía ao chão porque já tinha um trabalhador da limpeza urbana esperando o ataque da força da gravidade.

Enquanto isso, o resto da cidade afunda em um lixão. Não há forças armadas que contenham a irregularidade na coleta e a falta de educação do povo instruído para curtir quatro dias de pura festa quando desconhece o mínimo da máxima: lugar de lixo é no lixo!

A segunda-feira acordou com cara amassada: sonolenta, tendo que encarar a vida que continua depois dos quatro dias do carnaval fora de época – você já parou para pensar o que seria um carnaval fora de época? Como se o da época (?) já não fosse suficiente? Contradizemo-nos.

Segundo o Aurélio, “Época”, é um substantivo feminino que quer dizer:
Momento histórico ou espaço de tempo, assinalado por um fato importante – repito: FATO IMPORTANTE;
Sucesso notável, escolhido para uma divisão do tempo: a época das Cruzadas;
Tempo decorrido entre dois acontecimentos notáveis;
Espaço de tempo, que se seguiu a cada uma das grandes alterações do globo terrestre: a época terciária.

Começa, então, a partir disso a banalização das coisas e dos termos da língua portuguesa; da nossa paciência e da nossa capacidade de suportar a alegria de poucos. Ah, como sou chata, não é mesmo?! – Nossa, ela se incomoda com a felicidade dos outros! Não me entendam mal, eu não tenho nada contra a felicidade superficial dos outros ou contra a festa em si, e muito menos nada a favor.

Atrás do trio elétrico só não vai quem já morreu, já dizia o poeta sem causa. Devo estar morta desde que nasci. A minha vontade de ir atrás daquele carro com luzes coloridas em neon é proporcional ao meu amor pelo axémusic, ou seja: zero.

Na sexta-feira à tarde tive a bela ideia de ir a uma loja na Prudente de Morais, infelizmente tinha que ser esse estabelecimento que se situa no coração da festa pulsante. Eram 14h30 daquela tarde, mas parecia dia 1º de janeiro: tudo vazio. O mundo deu passagem ao ‘carnaval fora de tempo’, porque tem de ser.
Para os que defendem o espetáculo do rei Midas, que maneja essa engrenagem há mais duas décadas, não me tragam argumentos do tipo que, economicamente falando, o evento é viável para a cidade porque gera milhões de empregos diretos e indiretos. É verdade. Mas só para os grandes empresários que já têm o bastante para viver sem essa fórmula mágica que transforma pedaços de panos coloridos, uns tchurumrums e lelê-lelês, repetidas vezes, em muito dinheiro.

Ou será que os vendedores de cerveja, espetinhos, água mineral ficam milionários nesses quatro dias? Mostre-me um rico que esteja lá debaixo daquelas barraquinhas...

No sábado (08), pela manhã, por volta das 6h30, a caminho da UFRN, passei pelas ruas da folia. Da Avenida Prudente de Morais a visão era triste. Muito lixo e um mau cheiro insuportável oriundo dos dejetos humanos que escorriam dos banheiros químicos. A sensação que tive foi de estar no cenário de o "Ensaio Sobre a Cegueira" de Saramago. A metáfora é a mesma: todos cegos por uns dias, com uma diferença: aqui somos os cegos que não querem ver.

É para esse evento anual, dito o maior do mundo, que toda a mídia local se volta: transmissão ao vivo, flashs a doidado no rádio e páginas inteiras de jornais. É para esse evento, também, que toda a nossa pouca segurança pública, que se torna meio privada, se empenha em trabalhar. Dane-se quem precisar de policiamento na zona Norte da cidade, afinal, no final, os números precisam mostrar que esse foi o carnaval com o menor número de casos de violência dos últimos anos: isso é um título de jornal.

Acho que sou antiquada. Que importa? Me-careta. Não tenho um cartão de crédito capaz de parcelar em dozes vezes um abadá para pular no Caju – isso deve dar uma nódoa no bolso até o próximo, não é? E enfrentar uma fila quilométrica, sob o sol rachante de Natal para pegar a “mortalha”? Não mesmo. Sou careta! Nem cem Ivetes juntas fariam minha pessoa cultivar alguma simpatia por essa tradição fadada ao fim, eis uma profecia utópica.

Vamos falar sério: sabemos que estar no carnatal é estar no rol dos exibicionismos sociais, afinal lá estão as estrelas da Globo e o nosso colunismo social inteiro, cobrindo o que vai ser estampado nos jornais, naquelas páginas chamadas de “Cultura”, isso quando não estão no “Burro Elétrico”, como amostra grátis de intelectualidade, aquilo que todo comunicador deve possuir por osmose ou obrigação.

E as máscaras? É lá também que devem cair várias delas. Um paradoxo, já que são nessas folias, tipo de momos, que as máscaras são postas. Sabemos que é muita gente vazia entupida de prazer social. Eu sei que eu precisaria conhecer a verdadeira pessoa embaixo disso, mas por mais protetora dos animais que eu seja, eu não consigo. Mas não tem nada, não, na segunda-feira todo mundo se empacota novamente de civilidade e respeito – ou não - até a próxima vez, porque todo carnatal tem seu fim.

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