CALANGOTANGO não é um blog do mundo virtual. Não é uma opinião, uma personalidade ou uma pessoa. É a diversidade de idéias e mãos que se juntam para fazer cidadania com seriedade e alegria.

Sávio Ximenes Hackradt

21.7.12


Por Leide Franco (@LeideFranco)

Era véspera de meu aniversário, há quase quatro anos. Rodei algumas lojas no shopping em busca de uma roupa para vestir no grande dia seguinte. Horas de provas e nada, absolutamente nada caía bem. Voltei para casa. Fui tentar achar alguma coisa dentro do guardarroupa entupindo, e incrivelmente não tinha nenhuma roupa.

Quando estava desistindo encontrei uma calça jeans ainda com etiqueta, guardada a mofo há mais de um ano. Tentei vestir, não ultrapassou a altura dos joelhos, parecia que tinha encolhido com o tempo. Foi a partir daí que comecei a mudar de fora para dentro, num vice e versa.

Seis meses depois da maratona duríssima sequei quinze pesados quilos. O peso era muito mais na consciência do que em qualquer outra parte do corpo. O segredo foi o de praxe: alimentação saudável combinada com atividade física. Mantenho até hoje, só que bem mais despreocupada. Antes eu fazia atividade física e dieta para emagrecer e obter mais qualidade de vida, hoje continuo para não engordar. Os genes não perdoam!

Mas falar da minha epopeia não é a intenção deste texto, caro leitor. Quero falar da Natália, de 23 anos, que conheci esta semana na academia de ginástica que frequento. Foi daquelas poucas que bato o olho e gosto na mesma hora. A menina é alta feito uma varapau de quase um metro e oitenta distribuídos uniformemente em quarenta e cinco quilos. Não é difícil adivinhar que seu apelido de sempre é Olívia Palito. Mas Natália é só sorrisos e cheia de problemas hormonais que nenhum médico consegue resolver. “Um dia parei para contabilizar e cheguei a conclusão de que o que já gastamos com tratamento, daria para comprar casas e carros só meus”, disse.


Ela conta que já chegou a comer feito bicho. Jantava uma pizza gigante com dois litros de refrigerante na tentativa de engordar, mas tudo ia para seu rosto, transformava-se em monstruosas espinhas aterrorizantes “dá até para confundir meu olho com essa daqui”, diz apontando, rindo da própria desgraça. Natália já usou até creme feito exclusivamente para ela vindo dos EUA. Veio das mãos de médico renomado. Custou uma fortuna que compraria metade da metade de um carro dos que ela deveria guardar em casa, “mas foi como água”, lamentou.

Natália é a figura mais estranha de toda a academia, mas a mais doce. Está frequentando esse ambiente de gordinhos, fortes, musculosos e de todos os outros tipos de gente para ganhar massa muscular. “Não gosto. Queria mesmo era ganhar gordura, mas não tem jeito, nem que eu coma todos os toucinhos de todos os porcos do mundo, com certeza, não vou engordar”. Tudo que Natália come de gordura vira espinhas vulcânicas que procuram espaço nos cantos incabíveis do rosto dela e também nas costas. O jeito é fazer musculação para “engordar”.

Caros, a minha função desde então é a de tentar dar força a Natália. Dar força aos pensamentos e à força de vontade dela, pois os braços e pernas magricelas mal conseguem levantar quarenta quilos na leg press. A impressão é que a qualquer momento vão se partir ao meio, mas são muito mais fortes que os da gente. Cheguei a conclusão.

Natália se cansou de vestir 34 quando é em número, se for em letra, ah... às vezes cabe um PP, pequeno feito criança. “Quero usar jeans de gente grande. Preciso crescer para os lados também. Eu seria a pessoa mais feliz do mundo se fosse gorda. O ideal seriam uns quarenta quilos a mais”, exclama como quem não mede o peso de quarenta quilos em cima dos quarenta e cinco poucos existentes em seu corpo esguio, reto feito tábua de passar roupas.

Hoje me peguei pensando sobre o formato e o tamanho que tem a felicidade de cada um. Nenhuma é igual. Algumas pessoas só seriam felizes com o manequim 38 em perfeição com o corpo, no entanto estão acima da média. Outras não.

E assim vamos acompanhando as coisas da vida. Uns se esforçam para emagrecer, outros continuam se esforçando para não engordar, uns cultuam os músculos fortes e inflados e outros... Só querem engordar. Natália só quer ter um corpo enorme, minha gente! Ela nem se importa com as consequentes e desagradáveis celulites e gorduras por cima do cós da calça, aquelas que formam o famigerado “pneu”. É somente dessa maneira que ela seria altamente, enormemente feliz. E quem sou eu ou quem é você para estranhar a fórmula da felicidade dos outros? Pois, como já sabemos, ser feliz é o que sempre e mais importa, sendo feio, bonito, baixo, alto, gordo ou magro.

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