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Sávio Ximenes Hackradt

6.5.12


Há uma ficção que corre solta hoje tanto nas entrelinhas quanto na linha de frente da expansão dos grupos e partidos de extrema-direita na Europa: a de que eles não são racistas. A eleição francesa, que culmina no próximo dia 6 de maio, fornece um bom material para essa reflexão.

Por Flávio Aguiar, na Carta Maior*

Peço permissão a Saramago para glosar o título de seu romance de ficção científica para abrir uma discussão sobre a pretensa ciência de uma ficção que corre solta hoje tanto nas entrelinhas quanto na linha de frente da expansão dos grupos e partidos de extrema-direita na Europa (e talvez alhures também): a de que eles não são racistas.

A eleição francesa, que culmina no próximo dia 6 de maio (como a eleição grega), deu um bom material para essa reflexão. Como exemplo, sugiro consulta a matéria publicada recentemente no The Guardian.

Nela um jovem militante da Frente Nacional, de Marine Le Pen, expõe abertamente seu ideário e suas razões para fazer essa escolha. Esclarece, inclusive, a estratégia da Frente e de Le Pen que, no 1º. de maio, declarou votar nulo, embora liberasse (como une reine) seus seguidores, ou súditos, para votar de acordo com a consciência de cada um.

Para o jovem militante (da região de Vaucluse), que pretende se eleger para o Parlamento em junho, a eleição de Hollande seria, em primeiro lugar, uma catástrofe. Seria um desastre econômico imediato, piorado pelo fato de que ele abriria de imediato o voto para os imigrantes e chegaria, certamente, ao ponto de “permitir a fundação de um partido islâmico”.

Porém isso traria efeitos positivos. Em primeiro lugar, provocaria a desintegração da União por um Movimento Popular (UMP), o partido do atual presidente. Desse modo, argumenta o jovem voclusien, a Frente Nacional de Le Pen, se tornaria a força unificadora da direita na França, e, com os desastres de Hollande e seu credo à esquerda, ela teria 80% de chances de se eleger presidenta daqui a 5 anos.


Diz o jovem que a atual Frente, graças à atuação de Le Pen, se livrou dos velhos dinossauros racistas, que hoje é um partido moderno que atrai “managers, funcionários públicos, jovens estudantes de escolas de prestígio, estudantes de direito”, enfim, “gente de fato inteligente”. Até mesmo, insiste ele, jovens de ascendência imigrante, mas que se tornaram legítimos franceses. Queremos, diz ele, um “protecionismo inteligente”, o que a seus olhos nada tem de racista.

“O Islã tem de se adaptar à França, não o contrário. O estado secular tem de ser forte, de se impor. Se eles querem viver aqui, devem respeitar nossa cultura, como se eu vivesse no Marrocos. E sabe, é natural não sentir afinidade com quem não se parece, não se veste, não se comporta como nós. Só o ‘politicamente correto’ impede que as pessoas digam isso”.

Para ele, isso nada tem de racista. Seu maior argumento é ele próprio. Seu maior amigo – “o irmão quer nunca tive”, nas suas próprias palavras – é um negro. Mas... “ele estudou aqui, tem um trabalho, tem uma namorada francesa, um bebê, uma carteira de motorista, um título de eleitor, nunca teve problemas com a lei. Mas agora estão lhe dando um aperto por causa de sua nacionalidade. Não é justo. Não tenho o menor problema no que se refere ao lugar de origem das pessoas; o que importa é a integração. Ele ganhou o direito de ser um cidadão francês, com todos os direitos que isso implica. Alguns, francamente, não ganharam esse direito”.

Mutatis mutandis, o jovem em tela esgrima uma imagem análoga a de tradicional conceito brasileiro, de triste memória; ele se vale do conceito e da imagem de um negro de alma “bleue, blanche et rouge”, as cores da bandeira francesa. E para ele isso nada tem racista.

Por quê? Porque ele usou a palavra mágica: “cultura”.

A mesma coisa ocorreu com Thilo Sarrazin, na Alemanha, autor do livro e bestseller Deutschland schafft sich ab (A Alemanha que se anula), uma vigorosa investida contra as imigrações árabe, turca e muçulmana de um modo geral, acusadas de “emburrecerem” o país pela sua recusa à integração escolar, social e cultural. O autor, Sarrazin, é membro do Partido Social Democrata, foi Secretário de Finanças de Berlim, assessor da Deutsche Bahn (a Cia, Ferroviária Nacional) e conselheiro do Banco Central Alemão, cargo que teve de deixar por causa da publicação do livro. Para ele seu livro e seu pensamento nada têm de racismo: a questão, argumenta, é “cultural”.

Esse curioso uso da palavra investe de frente contra o conceito de “multiculturalismo”, usado em diferentes frentes e políticas públicas desde que oficialmente adotado no Canadá, em 1971, e transformado em Lei em 1988. Deriva da reação a este conceito, que reafirma o “monoculturalismo”, ou uma política de “assimilação”, também adotada oficialmente, nos tempos modernos, a começar pelo governo conservador de John Howard (próximo de Margareth Thatcher), na Austrália, em 1996, por oposição à política multicultural anterior. O movimento de Howard batia-se desde 1988 pela adoção de uma política baseada no ideal de “uma única nação, um único futuro”. Sugeria a diminuição da imigração, sobretudo de asiáticos, pretendia substituir a política de “reunião familiar”, que permitia a imigração de cônjuges de outras nacionalidades casados com cidadãos do país, por uma de imigração de “trabalhadores qualificados” e opunha-se a qualquer acordo com os primeiros nativos australianos.

Antigamente, as teorias racistas ajudavam a “naturalizar” as diferenças e o controle de pessoas de uma raça vista como inferior por outra vista como superior. De certo modo, havia um processo semelhante no que se refere à educação, no plano individual. Seria “natural” que pessoas “mais educadas” se sobrepusessem às “menos educadas”. Assim pensava, por exemplo, a nossa querida UDN, ao propor nos idos de logo depois da Segunda Guerra que o voto de um engenheiro deveria valer mais do que o de um operário. Tudo era uma maneira de tornar “natural” a desigualdade, da mesma forma que por esse tempo ainda se dizia que pobreza e riqueza eram “condições dadas por Deus”.

Esse racismo não desapareceu, mas caiu em desgraça. Agora, a dimensão cultural veio, paradoxalmente, “renaturalizar” a desigualdade, isto é, mais precisamente, o tratamento desigual e a rejeição do reconhecimento e da tolerância com as diferenças.

Na moldura deste tipo de pensamento, está a idéia de “conflito de civilzações” como motor da história no século XXI (um idéia que, curiosamente, se opunha às de Fukuyama sobre “o fim da história”), conforme exposta, por exemplo, por Samuel Huntington em The Clash of Civilization and the Remaking of World Order, de 1996:

“Minha hipótese é a de que a fonte fundamental de conflito neste novo mundo não será, em primeiro lugar, ideológica nem econômica. As grandes divisões entre a humanidade e a fonte dominante de conflitos serão culturais. Estados-nação continuarão a ser os atores mais poderosos no cenário mundial, mas os principais conflitos da política globarl ocorrerão entre nações e grupos de civilzações diferentes. O choque de civilzações dominará a política global. As imperfeitas linhas divisórias entre as civilizações serão as linhas de batalha do futuro”.

Huntington se notabilizou por assessorar governos anti-democráticos em seus planos de se perpetuar, como, inclusive, o de Médici (através de terceiros, não o próprio presidente) no Brasil e o regime do apartheid na África do Sul. Também animou correntes de pensamento, como as de Ronald Inglehart e Pippa Norris, nos Estados Unidos, que sugerem ser a diferença no liberalismo sexual (ou falta de) a principal linha de conflito entre o Ocidente e o mundo do Islã, e que esse desacerto podia levar o segundo à intolerância e à falta de democracia.

Entre as frases conhecidas de Huntington está a de que para se levar adiante uma política que queira universalizar os próprios valores (culturais de uma civilização) é necessário recorrer “à ambiguidade, ao engano, a premissas imperfeitas e à cegueira proposital”.

O nosso jovem, lá da matéria do The Guardian, não deixa de ilustrar esse ponto de vista. Acredito até que ele possa ser sincero em tudo o que afirmou. Mas é claro que nisso tudo há um ponto cego de intolerância, que o recurso ao conceito de “cultura” não só atenua, como expele do seu imaginário e da sua auto-imagem.

Ao lado desta cegueira, entretanto, existe uma segunda, tão cega e tão perniciosa quanto ela. É aquela de quem não consegue ver a correlação entre a adoção das políticas de destruição de direitos e garantias sociais e a emergência e aceitação dessa nova retórica, “moderna”, de direita.

Diz nosso ditado: “Em casa que não tem pão, todo mundo briga e ninguém tem razão”. Mais ou menos. Porque os mais fortes sempre se verão de modo melhor do que os mais fracos, sempre, mesmo que isso não seja dito expressamente, a “sua” cultura e a “sua” civilização serão melhores do que as outras.

Parafraseando outro dito nosso para a França: “farinha pouca, minha baguete primeiro”.

* Flávio Aguiar é correspondente internacional da Carta Maior em Berlim

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